segunda-feira, 22 de março de 2010

cinema mentiroso

Por favor indústria cultural, lembre-se de tempos menos burros! O lucro sempre veio antes, mas não à custa de tamanha estupidização alheia. O cinema norte-americano de hoje é tudo o que os xiitas queriam que ele fosse nas suas mais corrosivas diatribes de outrora. Mera sombra e embuste de um sistema de produção que já contou com talentos múltiplos do mundo inteiro. Chegamos a um ponto baixíssimo em que o melhor filme da temporada nos EUA é infinitamente inferior a qualquer título medíocre dos anos 70 ou 80.
Hoje, em pleno 2010, oferecem uma estatueta do Oscar a uma atriz limitadíssima como a Sandra Bullock. O filme que alavancou o prêmio, por sinal, foi um dos piores que eu já assisti numa sala de projeção: "um sonho possível", ou coisa parecida. Meu torpor constrangido foi tamanho que me mandei da sala antes que o meu cérebro e instintos virassem geléia!
Mais uma vez, então: por favor, produtores e distribuidores de plantão, respeitem o tempo daqueles minimamente dispostos a se distraírem com um pouco de magia, humor ou reflexão.
E a indústria distribuidora brasileira, pelo amor dos deuses, tome vergonha na cara e pare de nos massacrar com um produto de qualidade inferior às novelas globais.
O preço que essa máfia global cobra também não é refresco...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

uma definição de cinema

Adoro definições acerca do que, afinal de contas, o cinema parece aos olhos e sensibilidade de quem o experimenta e vê. Lembro de algumas, como as de Nicholas Ray, "o cinema é a melodia do olhar", e Truffaut, "o cinema é a morte em movimento".
Pois ontem me deparei com outra que muito me agradou. É de Eryk Rocha, cineasta que acaba de lançar "Pachamama", uma incursão fílmica às profundezas da América do Sul. Então, para ele, "o cinema é acreditar naquilo que não foi revelado"...

Para assitir ao trailer de Pachamama:
http://tv.estadao.com.br/videos,TRAILER-DE-PACHAMAMA,90368,262,0.htm

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Cinema Baltimore


Não que o Baltimore fosse um cinema que tivesse instalações de luxuosa aparência, ou mesmo apresentasse algum significado estético velado em sua estrutura asfáltica e austera. Era, sem dúvida, tão desconfortável quanto feio.
E desde quando adentrei em uma de suas salas – quando meu pai me levou pela primeira vez ao cinema, em alguma tarde de sábado do ano de 1983 – imagino que nele já se insinuavam os sinais de um lugar que se precipita em seu silencioso declínio.
Porto Alegre, aliás, naquele início dos anos oitenta andava um tanto cambaleada. E, embora meus primeiros anos não se resumam apenas à tomada de consciência da decrepitude das coisas, lembro-me de caminhar por entre praças, calçadas e parques mal cuidados recendendo a odores dos mais diversos e orgânicos possíveis.
Mas isto, é importante lembrar, foi muito antes dos programas de higienização urbana conferirem um ar de estéril e artificial ordenação à paisagem... Antes também que a cidade psíquica da classe média se reduzisse a poucos espaços de confinamento interligados por automóveis blindados contra todos e contra tudo.
Naqueles tempos idos de infância, minha cidade me apresentava sempre um ar crepuscular em suas avenidas vespertinas e corredores de edifícios repletos de fantasmas e esquecimento.
Pois o Cinema Baltimore dos meus anos infantis existia como se fosse mais uma dessas tantas entidades fantasmáticas que assombravam a minha impressionável imaginação. Remetia a um mundo ainda desconhecido e anterior a mim. Totalmente aberto às novidades que estavam por vir. E eu nem sequer tinha sido alfabetizado para poder ler as legendas do Superman 3!
Depois daquele sábado, dezenas de vezes, ao longo de duas dezenas de anos, continuei frequentando o Baltimore acompanhado do meu pai, irmão, mãe, primos, amigos e inclusive sozinho. Houve ocasiões marcantes como a vez em que a chuva de verão transformou os degraus da sala de cinema em rio em pleno Indiana Jones e a Ultima Cruzada! A projeção nem por isso foi interrompida. E nós também permanecemos sentados, impávidos e atentos às imagens convictos de que o problema seria passageiro. E de fato era.
O Baltimore ficava no epicentro do Bairro Bom Fim, que durante muito tempo foi o coração da boemia irreverente e criativa de Porto Alegre. Acima do Baltimore havia o seu mezanino que antes de ser rebatizado como Baltimore 3, se chamava Bristol. Pena que naquele tempo meu gosto por cinema ainda não me permitia aproveitar os ciclos de filmes de culto que o Romeu Grimaldi programava para aquela sala ... Mesmo assim, num dos dias mais quentes de verão fomos eu, o Antônio Augusto e o David assistir a um filme então desconhecido do Jerry Lewis. Se chamava o Rei da Comédia. Ocorre que naquela época era muito comum dar pane no sistema de ar-condicionado dos cinemas, sobretudo nos dias mais tórridos da estação... Detestamos o filme - que era uma comédia de humor negro dirigida por Martin Scorsese em que  Lewis já aparece como um homem passado da meia-idade - e ainda tivemos que suportar aquela verdadeira sauna! Hoje em dia O Rei da Comédia é um dos meus filmes mais simpáticos na filmografia de Scorsese e muito me orgulha ter podido assisti-lo no cinema, mesmo que naquele momento as minhas impressões tenham sido totalmente opostas às que eu passei a ter depois de maduro.
Em 2001 ou 2002 o Baltimore foi demolido para que um estacionamente pudesse existir. O Bom Fim hoje é apenas um fantasma de si mesmo.

Foto de Antônio Augusto